17 de abril de 2011

Maria

Maria tem pele clara. Maria tem cabelos negros. Maria tem olhos cativantes. Maria tem boca tentadora. Maria não é alta e nem baixinha. Maria tem rosto de menina. Maria tem corpão. Maria tem mãos pequenas. Maria tem pés pequenos. Maria tem as coxas grossas. Maria tem cintura fina. Maria tem bunda grande. Maria tem leveza no andar. Maria é bonita. Maria encanta. Maria é estranha. Maria quer ser engraçada. Maria é cheia de mistérios. Maria é toda transparente. Maria é tímida. Maria é cara-de-pau. Maria é toda oferecida. Maria gosta de chocolate amargo. Maria toma café toda tarde. Maria adora torta de limão. Maria não toma coca-cola. Maria gosta de cozinhar. Maria é determinada. Maria é grossa. Maria é bruta. Maria briga. Maria gosta de bater. Maria é carente. Maria é sonhadora. Maria é meiga. Maria é doce. Maria gosta de carinho. Maria tem voz aveludada. Maria fala baixinho. Maria gosta de gritar. Maria é delicada. Maria é estudiosa. Maria é preguiçosa. Maria é cínica. Maria é extremamente sensível. Maria chora à toa. Maria sorri bastante. Maria não gosta de ser romântica. Maria tem mania de mordiscar os lábios. Maria é sexy. Maria é provocante. Maria é desejável. Maria é louca. Maria apronta. Maria faz sexo desvairado. Maria gosta de irritar. Maria é irritada. Maria é serena. Maria anda descalça. Maria usa vestidos floridos. Maria gosta de all star. Maria perde a linha com sapato alto. Maria detesta coração. Maria prefere estrelas. Maria não sabe andar de bicicleta. Maria tem medo de dirigir. Maria quer voar. Maria quer morar no mar. Maria é metida. Maria tem humildade. Maria é orgulhosa. Maria já quis ser modelo. Maria quer fazer arquitetura. Maria quer ser atriz. Maria gosta de literatura. Maria quer viajar o mundo. Maria é apaixonada por velhinhos. Maria não tem jeito com crianças. Maria gosta de homem. Maria já ficou com mulher. Maria não tem medo de se expressar. Maria é envergonhada. Maria quer casar. Maria quer ter três filhas. Maria gosta de Los Hermanos. Maria adora carros antigos. Maria é lerda. Maria quer diversos amores. Maria gosta de sair no verão. Maria prefere o frio. Maria se reinventa em cada estação. Maria se ama loucamente. Maria não diz sim querendo dizer não. Maria é sincera. Maria é complicada. Maria é chantagista. Maria cativa. Maria é inteligente. Maria samba. Maria sabe ser mulher.

3 de abril de 2011

Dessas criaturas


É tão mágico e assustador o jeito que sabe me dominar,
Me ter pra você, totalmente entregue.
E quando estou contigo, só te quero mais.
Quando não, não há ninguém capaz de preencher o que falta aqui em mim.

És calmaria, fogaréu. Palavras, toques.
O sim, o não, o talvez.
Medo, coragem. Certo, incerto.
O doce, o amargo. Profundo.

E meu corpo grita vontades pertubadoras ao te sentir.
O coração pede mansinho o teu cheiro, teu sorriso.
Você inspira e me pira. Faz com que eu conheça sensações que ao menos sei nomear.

És sedutor, sabe nos conduzir numa dança que não é minha e nem tua.
São passos de tudo isso que nos envolve e nos mantêm.
Deliravelmente contagiante. Sorriso nos olhos, brilho nos lábios.

2 de abril de 2011

Medo de se Apaixonar

"Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada."

[Fabrício Carpinejar]